O Kuarup ocorre sempre um ano após a morte dos parentes indígenas. ... Em torno deles, a família faz uma homenagem aos mortos. Passam a noite toda acordados, chorando e rezando pelos seus familiares que se foram. E é assim, com rezas e muito choro, que se despedem, pela última vez.
Os indígenas sul-americanos, segundo a antropóloga Branislava Susnik (1983, p. 54), não manifestavam medo da morte, mas um profundo medo dos mortos, das almas dos mortos que colocavam em perigo as almas dos parentes vivos.
As crianças indígenas são preparadas para o ritual por cerca de um mês. A preparação inclui ida para a floresta, onde, como parte do ritual, os meninos aprendem a caçar, pescar e valorizar os bens da natureza de onde a aldeia tira o sustento para a família.
Os índios viam máquinas destruírem a floresta e as obras atraindo novos moradores. Valente narra as dificuldades de comunicação, encontros e desencontros entre brancos e índios, tensão permanente com empreiteiros e servidores. Mais de uma dezena de funcionários morreram em quatro chacinas entre 19.
Desde o final do século XIX, os índios dessa região viviam em conflito com os ditos “civilizados”. Em junho de 1968, alguns apareceram próximo aos canteiros de obras. Com os operários alarmados, o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) de Manaus, coronel Manoel Carijó, pediu ajuda à Funai.
Um caso ilustrativo da maneira como a questão indígena foi tratada durante a ditadura ocorreu na construção da BR-174, entre Manaus e a fronteira com a Venezuela, em Roraima. A rodovia cortava o território dos waimiri-atroari. Desde o final do século XIX, os índios dessa região viviam em conflito com os ditos “civilizados”.
Ele vê uma ação deliberada dos militares para abafar todos os casos relativos aos indígenas durante a ditadura. E avalia que os generais sabiam que viria uma enorme pressão internacional se as milhares de mortes viessem à tona. Isso também contribuiu para o silenciamento dessas violências.